Devaneios, delírios, desvarios

por Gustavo Madeira

Jul 29

Conversa a toa

(um texto antigo e que, não, não faz o menor sentido)

Dentro do bolso esquerdo do paletó conversavam os dois botões-reserva e um fiapo de tecido que ali estava largado. O assunto em pauta não poderia ser outro: como ainda permitiam que palavras ao vento ecoassem fora de controle e interrompessem o fluxo e o tráfego aéreo nas regiões mais quentes da Mongólia?

Os botões eram taxativos e defendiam a tese de que este controle deveria ser de responsabilidade de uma comissão formada pelo estado e por associações de classe.

O fiapo sempre fora um tanto rebelde e não era de se apegar muito aos assuntos políticos, claro, estava sempre mudando de bolso. Arriscou um palpite, porém, e disse que o controle de palavras ao vento poderia gerar o descontentamento da população, afinal os tempos da censura se foram, mas deixaram marcas profundas nos corações de todos. Ao menor sinal de perigo, jornalistas, exibicionistas, canetas e entidades de esquerda poderiam querer tomar o poder e, novamente, a ameaça vermelha entraria em cena.

A conversa teria entrado noite a dentro se o botão menor não tivesse tentado suicídio.


Jun 4

Promessas

- Papai podemos andar de bicicleta hoje?

- Hoje filha?

- Hoje.

- Não tem nenhuma outra coisa que você queira fazer a não ser andar de bicicleta?

- Depende.

- Er… Mas precisa ser hoje? Com esse tempo feio, meio nublado, pode ser que chova, tá ventando bastante e tem muitas nuvens. Você não prefere andar de bicicleta quando estiver sol?

- Prefiro. Mas é que hoje eu fiquei com vontade de duas coisas. Uma foi andar de bicicleta. Podemos andar de bicicleta hoje?

- Podemos filha, é claro que podemos. Mas nós também podemos tomar chuva se andarmos de bicicleta. Você quer tomar chuva e ficar doente?

- Eu não vou ficar doente.

- Como você sabe?

- Eu sei.

- E você vai me tirar da cama agora, de manhã cedinho, em pleno domingo, com esse tempo feio?

- É, nós vamos andar de bicicleta.

- Tá certo, mas antes eu quero perguntar duas coisas.

- O quê?

- Se eu sair dessa cama nós vamos ter que pedalar até a estação e voltar, sem reclamação, pode ser?

- E qual a outra coisa?

- Pode ou não pode?

- Primeiro diz qual é a outra coisa.

- A outra coisa é aquela outra coisa que você ficou com vontade hoje… por acaso é o elefante rosa que eu disse ontem antes de você dormir?

- Pode ser…

- Pode ser o quê? Pode ser para as duas coisas?

- Pode ser…

- Ta, vá pegar seu capacete e leve a sua bicicleta para o quintal enquanto eu me arrumo.


May 2

Learning to fly


Dec 11

OsGemeos - Vertigem

OsGemeosEu conhecia muito pouco, ou quase nada, do universo artístico destes dois caras. Sabia que eram do grafiti e artistas plásticos. Mas não sabia o tamanho da arte.

Estive na exposição d’OsGemeos, no museu da FAAP (http://www.faap.br/hotsites/osgemeos/index.htm até 13/dez).

Achei simplesmente sensacional. As pinturas, instalações, as portas e janelas que se transformaram em telas improváveis. As obras são fantásticas.

Eles falam da vida, de uma jornada incrível que dura um segundo, um dia ou uma vida inteira. Mostram que estamos sempre indo à algum lugar, mesmo estando parados. Convidam a abrir a cabeça para poder enxergar o que está dentro e o que está fora e, assim, romper a barreira do mundo físico, real. A vida é um automóvel, a vida é um barco navegando na imensidão do oceano, nos cenários caóticos que o homem cria e que o próprio homem destrói. Eles falam da injustiça. Falam dos mundos pessoais de cada um de nós, de nossos universos paralelos que estão dentro e fora do mundo real que conhecemos. E isso tudo é arte, é a vida em movimento.

Os caras são foda, vale a pena conferir. Mas corra, vai só até 13/dezembro.


Nov 20

Um qualquer

Não tinha necessariamente um nome. Tão pouco um lar, um pedaço de teto, alguma parede que o abrigasse do frio, do vento e da chuva.

Era arredio, não se aproximava, olhava sempre com desconfiança, com um olhar sincero de quem nasceu num tempo severo. Um tempo que não pára, que não entende nem perdôa.

Morava em todo canto, um pouco aqui, um pouco ali, nunca teve nem nunca teria qualquer endereço fixo.

Tinha seus próprios horários, como se dia e noite fossem meros intervalos de um evento infinito que teima em acontecer.

Aproveitava-se de qualquer um, de qualquer um a bondade ou ingenuidade. Pedia, ganhava, tomava, até roubava.

Não se via sua chegada, não se via sua partida. Ele apenas aparecia.

Passeava no meio da gente com esguio, desviava ou esbarrava conforme oferecia a situação. Com desenvoltura, elegância, posava até arrogante para ganhar a simpatia de um desavisado qualquer.

Tinha alguns amores, talvez vários. Cada um no seu endereço, na sua casa ou qualquer coisa que o valha. Não exigia cumplicidade, nunca quis nem ofereceu compromisso.

Era um gato vira-lata.


Oct 28

Uma coincidência inconveniente

Dizem que a história se repete. De fato, uma observação superficial permite identificar semelhanças entre as idas e vindas do rumo da história.

Porém, a observação superficial não pode servir de embasamento para uma argumentação consistente, é preciso ir a fundo, investigar, conhecer os detalhes, as situações e os cenários.

Então, num momento qualquer, lhe são apresentados cenários, situações e detalhes. Tome isso como fato, encaixe as peças do quebra-cabeça e visualize a coisa como ela é.

Eu acho que a coisa tá feia e este não é um achismo recente: na minha humilde opinião, já há tempos que a coisa enfeiou e quanto mais tempo, mais feia a coisa fica. O tempo é foda.

“Hein?”

Óquei, se você chegou a este ponto, é preciso apresentar o por quê disso tudo. Mas se prepare, que a coisa é feia mesmo.

Assista Zeitgeist The movie (2h02m): http://video.google.com/videoplay?docid=-2282183016528882906

Não que seja uma absoluta surpresa, mas é de meter medo.

E depois conversamos…


Oct 27

A saga de Pimpolha

Aquele era um dos maiores formigueiros da região, quase meio metro de altura, centenas de andares, milhares de câmaras, milhões de formigas servindo incansavelmente à sua rainha.

Com exceção de Pimpolha, a formiga aventureira. Não que não gostasse do ofício, mas não entendia o motivo de tamanha devoção à sua majestade. Em sua pequena cabeça de formiga não fazia sentido colher alimentos, fazer crescer o tamanho do formigueiro e viver entre outros milhões de seres, sem nenhuma privacidade. Ela queria independência, liberdade, queria construir sua própria casa e morar sozinha, queria poder sair do banho sem preocupar-se se a estariam espiando.

Depois de muita insistência, Pimpolha conseguiu convencer alguns amigos e juntos saíram do formigueiro e ganharam o mundo.

Depois de muito andar, escolheram o local perfeito para construção do novo formigueiro: sob a sombra de uma árvore e próximo de um riacho. Não perderam um minuto se quer, puseram mãos à obra e em pouco tempo estava erguida a mais nova residência de formigas de que se tinha notícias.

A construção, porém, acabou atraindo a curiosidade dos antigos vizinhos de Pimpolha e antes que ela pudesse acostumar-se com a novidade, lá estavam centenas de milhares de formigas servindo incansavelmente à sua rainha.

Com exceção de Pimpolha, claro. Não que não achasse aquele processo todo um tanto interessante, mas não concebia servir cegamente aos membros da corte. Em sua pequena cabeça de formiga passavam outros pensamentos, outras vontades e desejos. Ela queria conhecer o mundo, explorar novos horizontes e, principalmente, dançar pelada pela casa após o banho. Nada disso seria possível se ela continuasse no formigueiro.

Iniciou um movimento de libertação e ganhou alguns adeptos, com eles partiu para uma jornada fantástica rumo ao desconhecido.

Após dias de caminhada, encontraram um lugar perfeito para estabelecimento de um novo lar: próximo de um riacho e sob a sombra de uma árvore. Sem festas, nem comemorações, o grupo se organizou e construiu um formigueiro novinho em folha.

Não demorou muito para que a construção atraísse novos inquilinos e novamente Pimpolha estava vivendo entre milhões de formigas, que nada mais faziam além de trabalhar pelo sustento da comunidade e sua rainha.

Mas Pimpolha era diferente. Não que menosprezasse a importância da rainha, mas sentia que sua existência tinha um propósito maior. Em sua pequena cabeça de formiga havia outros instintos e ela pretendia segui-los.


Oct 24

O carro voador

- Estranho, achei que estivesse quebrado, eu mesmo arranquei a roda. Ainda bem que não quebrou, como eu conseguiria ir para a festa sem uma roda?

Entrou no carro, último modelo, os sensores inteligentes acionaram o motor. Pisou no acelerador e nada, nenhum movimento. Abriu a porta, desceu, parou de frente para o veículo, encarou-o e disse carinhosamente:

- Olha, eu preciso de você, nós precisamos ir para a festa. Desculpe ter arrancado a roda, prometo que não faço mais isso, agora vamos, está na hora.

Entrou novamente no carro, motor ligado, pisou fundo no acelerador e partiram a toda velocidade, cantando pneus como nos filmes da TV. Ao entrar na avenida, a decepção: o congestionamento de sempre, milhares de carros, motos, buzinas, helicópteros, aviões, soldados, heróis e o velho caminhão dos bombeiros.

- Vamos carrinho, voe, voe rápido que a festa já começou!

O bólido vermelho obedeceu, ergueu-se no ar por mágica e partiu como um foguete costurando entre os postes. Seria uma entrada triunfal ele e seu super-carro aterrissando no quintal da casa, para a inveja de todos os amigos.

Sobrevoaram o parque, a padaria, a escola, quando passaram sobre a casa da tia Dulce um alarme disparou, as luzes do painel começaram a piscar e o carro voador foi perdendo potência.

- O que está acontecendo? Não! Não pode ser, não agora!

O barulho foi aumentando, o carro foi descendo e a tragédia era iminente.

Seis e dez da manhã e o despertador iniciava pontualmente sua gritaria matinal.

- Droga, nem deu tempo de chegar na festa. Eu quero um carro voador.

O menino abriu lentamente os olhos e sentou-se na cama. Não podia acreditar que o maldito despertador estragara seu passeio aéreo. Olhou esperançoso para o carrinho de brinquedo na estante, mas de fato faltava-lhe a roda que fora arremessada no quintal do vizinho dias antes.

- Drog…

- Bom dia querido! Do que você está reclamando a esta hora da manhã?

- Mãe, eu quero um carro voador de aniversário.

- Filho, a mamãe já comprou seu presente e não é um carro voador, sinto muito. E na loja disseram que não tem carro voador. Agora vá se vestir e desça para tomar café, não podemos nos atrasar, hoje você tem prova.

- Mamãe, acho que não preciso fazer a prova…

- Por quê não?

- Lembra que a professora disse que eu sou muito inteligente?

- Claro que lembro!

- Lembra que ela disse que eu era um dos melhores da turma?

- Claro filhinho.

- Lembra que você disse que as provas são para provar que você aprendeu?

- Lembro, meu filho…

- Se a professora disse que eu sou inteligente e um dos melhores da classe, então eu não preciso provar nada pra ela, não preciso fazer a prova!

- As coisas não funcionam assim filho. Você se lembra que eu disse que cancelaria sua festa de aniversário se você não cooperasse?

- Não…

- Lembra sim, agora vá se trocar.

A contra gosto o menino levantou da cama, já um pouco mal humorado. Suas argumentações, embora sempre consistentes, raramente convenciam a sua mãe. Ele parou na frente da estante e disse friamente:

- Viu o que você fez? Demorou pra funcionar e eu não consegui chegar na festa. Carro idiota! Da próxima vez é melhor você funcionar direito…

Diz a lenda que o menino, muitos e muitos anos depois, construiu seu protótipo de carro voador, o primeiro de que se têm notícias. O projeto foi surrupiado por uma mega-corporação americana, que lançou o veículo no mercado, ficou com todos os créditos e os lucros. Após anos e mais anos de idas e vindas a tribunais, fóruns e escritórios de advocacia, o inventor e a corporação chegaram num acordo. Tudo que o menino pediu foi um carro voador vermelho, com quatro rodas.


Oct 21

Juvenal

O Juvenal é um cara humilde. Homem simples, trabalhador, é gente que faz, com suor e lágrimas.

É claro que tem seus momentos de redenção, vez ou outra recebe os amigos para a roda de viola, tomar cachaça e jogar conversa fora. Entretanto, os “dias normais” - como ele costuma dizer - começam cedo, antes do sol raiar e, ás vezes, nem têm hora para terminar.

A lavoura é a vida do Juvenal. Preparar a terra, plantar, cuidar, colher, vender. Rezar e torcer pelo Sol, pela chuva e pela seca, tudo no seu devido tempo. Quando o tempo ajuda é safra graúda, quando o tempo empata é safra miúda. A lavoura é a vida da família do Juvenal há mais ou menos várias gerações, são tantas que ele já perdeu a conta.

O Juvenal realizou um sonho: comprou um telefone celular. Comprou no Rio de Janeiro, através de um parente distante, o aparelho chegou pelo correio muitas semanas depois. “Ele liga, manda mensagem, tira foto, grava, mostra as horas e tudo mais” diz orgulhoso. “Falta só a linha telefônica, o aparelho ainda não dá sinal”. E não há nem previsão de uma operadora ou cobertura celular onde ele mora.

Será que vai demorar, Juvenal?

“Ah, não sei, espero que não”.


Oct 18

Arca de Noé Reloaded

- Isso é um absurdo! - disse o Pingüim - quem você pensa que é para dizer uma coisa dessas?!

O clima estava tenso, ninguém dava sinais de que iria ceder e todos queriam impor suas idéias. Era de se surpreender o Pinguim, com o pouco tamanho, enfrentando daquela forma alguém que ocupasse o topo da cadeia alimentar, mas o Leão, apesar de também gritar ferozmente, parecia fazer pouco caso do pequenino. Em tom de deboche indagou:

- Quem eu pensou que eu sou? Eu não preciso pensar, eu JÁ sou. Pinguinzinho, se eu fosse você colocava o rabinho entre as pernas ficaria quieto, você sabe que não vai conseguir nada aqui se continuar com esta histeria toda. Eu já lhe disse que sobre este assunto eu não vou aceitar nenhum comentário estúpido.

- Estúpido é você, seu leão metido a besta! - o Leão rosnou e o Pinguim diminuiu o tom de voz - Você fica com essa pose de rei da selva, malvadão, mas na verdade quando chega em casa quem manda é a patroa!

Com uma patada certeira, o Leão acertou o Pinguim, que imediatamente calou-se, já com lágrimas nos olhos.

- Quem fala o que quer leva o que não quer - esbravejou o Leão - e eu não te dei intimidades para falar da patroa em vão. Agora vê se fica quieto senão terei sushi de pinguim no almoço.

- Calma, pessoal, vamos manter a calma - interrompeu o Mamute - violência não leva a nada e se continuarmos assim não conseguiremos resolver nada! Façamos uma votação… quem é a favor do futebol levante a mão!

O Chimpanzé ergueu os braços, seguidos pelo Cachorro, pelo Elefante e pelo Pinguim, que já enxugava as lágrimas nos brancos pêlos do Coelhinho. Os outros bichos nem se moveram.

- Agora quem é a favor do caraoquê levante a mão - continuou o Mamute. Neste momento o Papagaio, o Sapo e o Grilo se manifestaram e era visível sua frustração quando viram que a cantoria não ganhara outros adeptos.

- Quem vota pelo campeonato de truco? - prosseguiu o mamute, mas nem o Camaleão, que propusera o campeonato, se mostrou animado com a idéia.

- Óquei, então quem quer construir a Arca??

Iniciou-se um alvoroço e todos bichos que ainda não haviam votado ergueram as patas, penas, asas, focinhos e etc. Até aqueles que haviam votado nas outras atividades animaram-se em ver todos os outros animais tão empolgados.

O único que parecia chateado era o Noé, que teria que cancelar o churrasco e passar o final de semana trabalhando…


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