Devaneios, delírios, desvarios

por Gustavo Madeira

Oct 24

O carro voador

- Estranho, achei que estivesse quebrado, eu mesmo arranquei a roda. Ainda bem que não quebrou, como eu conseguiria ir para a festa sem uma roda?

Entrou no carro, último modelo, os sensores inteligentes acionaram o motor. Pisou no acelerador e nada, nenhum movimento. Abriu a porta, desceu, parou de frente para o veículo, encarou-o e disse carinhosamente:

- Olha, eu preciso de você, nós precisamos ir para a festa. Desculpe ter arrancado a roda, prometo que não faço mais isso, agora vamos, está na hora.

Entrou novamente no carro, motor ligado, pisou fundo no acelerador e partiram a toda velocidade, cantando pneus como nos filmes da TV. Ao entrar na avenida, a decepção: o congestionamento de sempre, milhares de carros, motos, buzinas, helicópteros, aviões, soldados, heróis e o velho caminhão dos bombeiros.

- Vamos carrinho, voe, voe rápido que a festa já começou!

O bólido vermelho obedeceu, ergueu-se no ar por mágica e partiu como um foguete costurando entre os postes. Seria uma entrada triunfal ele e seu super-carro aterrissando no quintal da casa, para a inveja de todos os amigos.

Sobrevoaram o parque, a padaria, a escola, quando passaram sobre a casa da tia Dulce um alarme disparou, as luzes do painel começaram a piscar e o carro voador foi perdendo potência.

- O que está acontecendo? Não! Não pode ser, não agora!

O barulho foi aumentando, o carro foi descendo e a tragédia era iminente.

Seis e dez da manhã e o despertador iniciava pontualmente sua gritaria matinal.

- Droga, nem deu tempo de chegar na festa. Eu quero um carro voador.

O menino abriu lentamente os olhos e sentou-se na cama. Não podia acreditar que o maldito despertador estragara seu passeio aéreo. Olhou esperançoso para o carrinho de brinquedo na estante, mas de fato faltava-lhe a roda que fora arremessada no quintal do vizinho dias antes.

- Drog…

- Bom dia querido! Do que você está reclamando a esta hora da manhã?

- Mãe, eu quero um carro voador de aniversário.

- Filho, a mamãe já comprou seu presente e não é um carro voador, sinto muito. E na loja disseram que não tem carro voador. Agora vá se vestir e desça para tomar café, não podemos nos atrasar, hoje você tem prova.

- Mamãe, acho que não preciso fazer a prova…

- Por quê não?

- Lembra que a professora disse que eu sou muito inteligente?

- Claro que lembro!

- Lembra que ela disse que eu era um dos melhores da turma?

- Claro filhinho.

- Lembra que você disse que as provas são para provar que você aprendeu?

- Lembro, meu filho…

- Se a professora disse que eu sou inteligente e um dos melhores da classe, então eu não preciso provar nada pra ela, não preciso fazer a prova!

- As coisas não funcionam assim filho. Você se lembra que eu disse que cancelaria sua festa de aniversário se você não cooperasse?

- Não…

- Lembra sim, agora vá se trocar.

A contra gosto o menino levantou da cama, já um pouco mal humorado. Suas argumentações, embora sempre consistentes, raramente convenciam a sua mãe. Ele parou na frente da estante e disse friamente:

- Viu o que você fez? Demorou pra funcionar e eu não consegui chegar na festa. Carro idiota! Da próxima vez é melhor você funcionar direito…

Diz a lenda que o menino, muitos e muitos anos depois, construiu seu protótipo de carro voador, o primeiro de que se têm notícias. O projeto foi surrupiado por uma mega-corporação americana, que lançou o veículo no mercado, ficou com todos os créditos e os lucros. Após anos e mais anos de idas e vindas a tribunais, fóruns e escritórios de advocacia, o inventor e a corporação chegaram num acordo. Tudo que o menino pediu foi um carro voador vermelho, com quatro rodas.


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