A saga de Pimpolha
Aquele era um dos maiores formigueiros da região, quase meio metro de altura, centenas de andares, milhares de câmaras, milhões de formigas servindo incansavelmente à sua rainha.
Com exceção de Pimpolha, a formiga aventureira. Não que não gostasse do ofício, mas não entendia o motivo de tamanha devoção à sua majestade. Em sua pequena cabeça de formiga não fazia sentido colher alimentos, fazer crescer o tamanho do formigueiro e viver entre outros milhões de seres, sem nenhuma privacidade. Ela queria independência, liberdade, queria construir sua própria casa e morar sozinha, queria poder sair do banho sem preocupar-se se a estariam espiando.
Depois de muita insistência, Pimpolha conseguiu convencer alguns amigos e juntos saíram do formigueiro e ganharam o mundo.
Depois de muito andar, escolheram o local perfeito para construção do novo formigueiro: sob a sombra de uma árvore e próximo de um riacho. Não perderam um minuto se quer, puseram mãos à obra e em pouco tempo estava erguida a mais nova residência de formigas de que se tinha notícias.
A construção, porém, acabou atraindo a curiosidade dos antigos vizinhos de Pimpolha e antes que ela pudesse acostumar-se com a novidade, lá estavam centenas de milhares de formigas servindo incansavelmente à sua rainha.
Com exceção de Pimpolha, claro. Não que não achasse aquele processo todo um tanto interessante, mas não concebia servir cegamente aos membros da corte. Em sua pequena cabeça de formiga passavam outros pensamentos, outras vontades e desejos. Ela queria conhecer o mundo, explorar novos horizontes e, principalmente, dançar pelada pela casa após o banho. Nada disso seria possível se ela continuasse no formigueiro.
Iniciou um movimento de libertação e ganhou alguns adeptos, com eles partiu para uma jornada fantástica rumo ao desconhecido.
Após dias de caminhada, encontraram um lugar perfeito para estabelecimento de um novo lar: próximo de um riacho e sob a sombra de uma árvore. Sem festas, nem comemorações, o grupo se organizou e construiu um formigueiro novinho em folha.
Não demorou muito para que a construção atraísse novos inquilinos e novamente Pimpolha estava vivendo entre milhões de formigas, que nada mais faziam além de trabalhar pelo sustento da comunidade e sua rainha.
Mas Pimpolha era diferente. Não que menosprezasse a importância da rainha, mas sentia que sua existência tinha um propósito maior. Em sua pequena cabeça de formiga havia outros instintos e ela pretendia segui-los.