Devaneios, delírios, desvarios

por Gustavo Madeira

Nov 20

Um qualquer

Não tinha necessariamente um nome. Tão pouco um lar, um pedaço de teto, alguma parede que o abrigasse do frio, do vento e da chuva.

Era arredio, não se aproximava, olhava sempre com desconfiança, com um olhar sincero de quem nasceu num tempo severo. Um tempo que não pára, que não entende nem perdôa.

Morava em todo canto, um pouco aqui, um pouco ali, nunca teve nem nunca teria qualquer endereço fixo.

Tinha seus próprios horários, como se dia e noite fossem meros intervalos de um evento infinito que teima em acontecer.

Aproveitava-se de qualquer um, de qualquer um a bondade ou ingenuidade. Pedia, ganhava, tomava, até roubava.

Não se via sua chegada, não se via sua partida. Ele apenas aparecia.

Passeava no meio da gente com esguio, desviava ou esbarrava conforme oferecia a situação. Com desenvoltura, elegância, posava até arrogante para ganhar a simpatia de um desavisado qualquer.

Tinha alguns amores, talvez vários. Cada um no seu endereço, na sua casa ou qualquer coisa que o valha. Não exigia cumplicidade, nunca quis nem ofereceu compromisso.

Era um gato vira-lata.


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